
CHEIRO DE CHUVA
Eles sussurraram nomes, memórias e promessas pequenas, como quem planta sementes para um jardim que só será visto depois.


POEMA: CHEIRO DE CHUVA
Ela voltou para casa com o cheiro de chuva ainda preso nos cabelos, gotas pequenas brilhando nas pontas como micro-lâmpadas.
A tarde de domingo tinha se estendido em conversas leves e risos soltos; agora, no silêncio do apartamento, a cidade parecia respeitar a intimidade que se formava entre as paredes.
Ele estava na cozinha, a luz morna atravessando a cortina, uma música baixa preenchendo o espaço. Ao avistar-lhe a figura na porta, algo em seu rosto se abriu — um reconhecimento que não precisava de palavras.
Ela deixou a bolsa cair no sofá e caminhou devagar, sentindo na pele o arrepio fresco que a chuva deixara. Cada passo parecia compor uma pergunta mansa.
Ele ofereceu a mão, primeiro gesto antigo e novo ao mesmo tempo. Quando seus dedos se encontraram, houve um silvo suave, uma centelha que não se explicou. Sentaram-se lado a lado, sem pressa, partilhando o calor do um e do outro.
A conversa se tornou um rio de confidências e pausas significativas; os olhos falavam o que a boca poupava.
Ela inclinou-se, apoiando a cabeça no ombro dele. O mundo reduzira-se ao compasso dos batimentos e ao acorde distante da música. Ele tocou-lhe o cabelo, a ponta dos dedos desenhando rotas já conhecidas.
O toque não apressava: era um mapa, um convite a explorar lentamente os contornos da presença alheia.
Quando as mãos se acharam no centro do peito um do outro, a respiração mudou de ritmo — mais profunda, mais consciente. Não havia pressa de chegar a lugar algum.
Havia um deleite quase religioso na simplicidade do toque: a palma que aquecia, o polegar que desenhava sonhos na pele, o sorriso que crescia sem razão.
Eles sussurraram nomes, memórias e promessas pequenas, como quem planta sementes para um jardim que só será visto depois. O ambiente estava carregado de uma ternura intensa, onde cada gesto era carregado de intenção, cada olhar um poema sem versos.
Quando a noite se alongou, trocaram beijos que variavam entre o exploratório e o faminto, sempre guardando doçura nas extremidades. O desejo presente, mas contido — mais arte do que urgência, mais cuidado do que pressa.
E ali, naquela cômoda penumbra, construíram algo que não precisava de rótulos: a confiança de dois corpos que se celebravam com respeito e atenção.
Por fim, adormeceram entrelaçados, como se o resto do mundo pudesse esperar. A chuva retomou seu ritmo no telhado, e os dois, embalados por aquele som, permaneceram onde tudo havia começado — no lugar seguro que criaram um no outro.
Luzia Couto 21 /09/26
Maria Luzia Do Couto Rodrigues
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